terça-feira, 30 de julho de 2013

Interpretação (I)

Neste post estou considerando o termo "interpretação" no sentido de execução musical, ou seja, ao processo musical de transformar a música escrita (em partituras ou registros escritos) em música propriamente dita, criando a experiência sonora ao ouvinte.

As incontáveis variações e diferenças que aparecem nas interpretações é o que torna, na minha opinião, a música erudita tão interessante. Nem mesmo peças célebres são imunes a uma interpretação medíocre, e o contrário também ocorre: peças simples crescendo em força e sonoridade, graças a uma excelente interpretação. É como disse Gustav Mahler, em uma frase parecida com esta: "A partitura tem tudo sobre a música, exceto o essencial." O próprio Carlos Gomes, em carta a Francisco Braga, escreveu que "a música é expressão e expressão não se escreve".

É evidente que este assunto é vastíssimo e complexo. A interpretação está apoiada e limitada em vários outros fatores, igualmente diversos e complexos, tais como partituras com especificações não muito exatas, perícia dos músicos no que diz respeito ao domínio de seus instrumentos (assim como a qualidade dos próprios instrumentos), gosto pessoal dos maestros, modificações na orquestração, etc.

Se você conhece o mínimo de música erudita já deve ter percebido como diferentes interpretações podem realmente afetar profundamente a obra. Mas vamos explorar o assunto de uma forma prática. Escolhi uma obra de Mozart para mostrar, usando alguns videos, como uma mesma obra soa diferente dependendo de quem a está executando.

A obra escolhida foi o Divertimento em Ré Maior, KV 136, em seu terceiro movimento, "Presto". A primeira coisa é ter em mãos a partitura da obra. Neste ponto já temos o primeiro problema, ou seja, o primeiro ponto onde podem começar as diferenças. A pergunta é: "qual partitura?" Sim, pois não temos em mãos a original manuscrita de Mozart (e não seria muito útil, a menos que já estivéssemos acostumados com a caligrafia dele). Então as partituras que temos são cópias das cópias das cópias... O quanto distante isto já está da ideia original do compositor? Este é o primeiro ponto, no qual começam a nascer as potenciais diferenças.

Vamos tentar então pegar a partitura mais confiável que conseguirmos. Temos esta:

IMSLP64150-PMLP14900-Mozart_Werke_Breitkopf_Serie_14_KV136.pdf

(Aliás, perguntinha rápida: você conhece o IMSLP? Se você curte música erudita e não conhece o IMSLP, então sua vida está prestes a mudar.... clique aqui e impressione-se)

É uma partitura para quarteto de cordas. Na página 8(284) inicia-se o Presto. Aqui, outro ponto onde as diferenças podem se acentuar ainda mais. Na partitura diz apenas "Presto" e nada mais. Não temos o tempo exato que Mozart imaginou ao compor a obra. Que valor colocamos no metrônomo? Este é um motivo de muita discussão. Veja neste link de teoria musical os vários valores aceitáveis para as mais diferentes marcações de tempo. Para "Presto" temos o seguinte:

  • 100-152 bpm (some sources suggest 168-208 bpm)
  • (a nineteenth-century Maezel metronome suggests 160 bpm)
  • (a 1950 metronome suggests 144 bpm)
  • (a modern electronics metronome suggests 180 bpm)

Então, dependendo da escola do músico, de sua formação musical, dependendo da literatura na qual ele se baseia, podemos ter uma execução que vai de 100 bpm até 208 bpm!!! Não sei se você tem uma noção clara do quanto um extremo difere do outro. Se não tem, vamos ver então, na prática. De posse da partitura e de um metrônomo (se você não tem um, pode usar um metrônomo on-line, como este aqui), tente solfejar a música em 100 bpm e depois em 208 bpm.

Bom, certamente você já percebeu que, apesar destes valores estarem presentes na literatura, é bem estúpido considerar ambos como "Presto". Mas então, qual valor usar? O ponto médio entre os extremos? Quais extremos? A partir deste ponto, não existem mais respostas certas e erradas. Vai depender de como você vai interpretar a obra. A título de curiosidade, com o passar dos anos esta bagunça foi sendo eliminada com os compositores colocando o valor explicitamente na partitura (por exemplo, M.M. = 160), complementando de maneira mais exata a palavra (ou frase) que indica o andamento. Alguns músicos acham que isto deixa a partitura "engessada demais", pois o compositor não dá liberdade na escolha do metrônomo. Ora, isto é idiotice pois há muito mais em jogo. Definir com exatidão o metrônomo não deixa coisa alguma engessada, apenas coloca uma definição mais correta em algo que deveria ser, por definição, matematicamente exato. E músicos não são computadores executando um arquivo MIDI... haverão naturalmente acelerações, retardos, etc, etc., tudo dentro do que se espera de músicos humanos e emocionais, só que tendo como base o metrônomo.

A seguir, eu vou colocar 3 videos com diferentes interpretações da obra em questão. No primeiro, temos Herbert von Karajan conduzindo a Filarmônica de Berlim. O "Presto" começa aos 9:16. Pode ir direto até lá e ouça o "tio Herbert" apressado, castigando a orquestra... devia estar atrasado para algum compromisso, ou algo assim.


No segundo vídeo, não sei quem são os interpretes. Só sei que são lerdos. O "Presto" começa aos 14:27. Ouça:

Neste terceiro vídeo, a execução foi feita pelo pessoal da Drottningholm Baroque Ensemble, utilizando instrumentos autênticos da época barroca. Antes que os puristas pulem de alegria, vou provocar aqui com minha opinião: usar instrumentos de época não é, necessariamente, sinônimo de melhor sonoridade. Felizmente, os instrumentos evoluíram muito desde aquela época. Ouça e tire suas próprias conclusões:


E então? Qual você gostou mais?
Antes de responder (ou se você não gostou de nenhuma delas, o que é mais provável....), ouça a interpretação de Seiji Ozawa, conduzindo a Mito Chamber Orchestra, vindo de uma modesta gravação em VHS de 1990.

E agora? Me arrisco a dizer que agora sim, este movimento "agradou seu ouvido e alegrou seu coração". Na minha opinião, a melhor interpretação deste movimento é algo bem próximo a isto. Interpretação limpa, exata, com energia e leveza, levando o andamento "Presto" nem para um extremo nem para outro.

Este pequeno exercício foi só para ilustrar o quanto a interpretação influencia no resultado sonoro, assim como as escolhas acerca da instrumentação, etc. Para quem gosta de música erudita, uma das dificuldades (mas, ao mesmo tempo, é um dos prazeres) é 'garimpar' as melhores interpretações. Muitas vezes vale a pena até pagar por isto, por um determinado CD ou DVD que contém aquela interpretação perfeita! A busca pelas melhores interpretações é algo que acompanha o ouvinte apreciador de boa música por toda a vida.

domingo, 30 de junho de 2013

Edvard Grieg

Grieg é sem dúvida o maior compositor da Noruega, sendo um dos responsáveis por colocar a Escandinávia no mapa musical. É bem verdade que Grieg viria a ser um pouco marginalizado na história da música clássica, mas, apesar disso, exerceu grande influência sobre os compositores franceses do século 20. Grieg morreu em setembro de 1907.


Sua exploração da música folclórica norueguesa e colaborações com escritores conterrâneos ajudaram-no a desenvolver um estilo abertamente nacionalista em espírito. Suas melhores obras estão nas canções líricas e nas requintadas peças instrumentais. Quem não conhece as Suítes Peer Gynt n.1, Op.46 e n.2, Op.55 ? Logo nos primeiros segundos do vídeo abaixo você vai lembrar:


Estas suítes são livremente baseadas em contos de fadas noruegueses. Nasceram de 23 peças curtas compostas como música incidental para uma montagem teatral. Para Grieg, mestre da miniatura, a música incidental para teatro era a forma ideal.
As vezes Grieg é depreciado por ser miniaturista, e não deixa de ser verdade, mas reconhece-se como uma exceção o majestoso Concerto para piano, op.16. Este concerto foi fortemente influenciado pelo concerto para piano de Schumann e também Liszt. Aliás, reza a lenda que Liszt viu a obra em manuscrito e impressionou Grieg ao tocá-la perfeitamente à primeira vista!
Se você não conhece este concerto, tire uma meia hora e assista-o, de preferência com um som decente e em 720p. Os compassos de abertura desta obra devem ser dos mais instantaneamente identificáveis em toda a música clássica.


O solista gurizão no vídeo acima chama-se Hannes Minnaar, pianista holandês que, apesar da pouca idade, já vem ganhando destaque no meio musical. Na verdade, fiquei impressionado com a execução dele deste concerto. Não é uma execução estática (tem alguns pianistas que parecem uma múmia dedilhando ao piano), e que se sai com desenvoltura tanto nas partes mais virtuosas quanto nas partes mais suaves. Neste concerto de Grieg, a principal forma de saber se o solista é bom (óbvio, assim como em boa parte dos concertos de piano), é a parte da cadenza. Ouve só o que o guri faz dentre os 8:36 e 11:52... chega a dar pulos na cadeira! E esta energia toda passa para a música, excelente.


Aliás, uma ótima dica é este site da Avro:

http://cultuurgids.avro.nl/front/archiefklassiek.html
ou ainda o canal deles no YouTube. 

Tem MUITA coisa legal ali, magnificamente gravados, tanto áudio quanto imagens, e isto sem falar da parte musical: execuções mais que excelentes (a nossa OSPA tem que comer muito feijão para chegar perto disto...).

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Jackie Evancho


Já tem algum tempo que este post está na fila, mas apenas agora consegui concluí-lo. É um post sobre o que acontece na vida quando se juntam educação, disciplina, investimento, oportunidade e, principalmente, talento. E, em se tratando particularmente de música, eu diria que desta lista o talento é o item essencial. Se vocês ainda não conhecem, lhes apresento Jackie Evancho, esta garotinha da foto abaixo:


Jackie nasceu em abril de 2000, em Pittsburgh, Pennsylvania, e já era razoavelmente conhecida em sua região, onde já apresentava-se como cantora desde 2009. Mas foi ao participar da 5º edição do America's Got Talent (sim, o mesmo programa que apresentou Susan Boyle ao mundo) que ela tornou-se realmente conhecida. Esta edição foi em 2010, e olhem só como foi a primeira apresentação dela no concurso, cantando a ária "O Mio Babbino Caro", da ópera Gianni Schicchi (1918), de Giacomo Puccini:


Quando vi este video pela primeira vez, além de emocionado, fiquei muito impressionado. Eu mal podia acreditar nisto, a imagem parecia não combinar com o som: uma típica garotinha de 10 anos, só que cantando melhor do que muita gente grande por aí. Na época os comentários eram vários. Talvez pelo impacto que ela tenha causado no público do America's Got Talent, muita gente considerava a Jackie como sendo a "segunda Susan Boyle". Outros ainda mais empolgados a consideravam como "uma representante dos anjos na Terra".

Obviamente houveram críticas. Algumas pessoas criticavam coisas do tipo "os poofs no microfone", ou ainda as respirações em lugares inapropriados... Eu li algumas merdas deste tipo, ditas por pessoas em geral negativas que só sabem ressaltar os defeitos. Porra, ela tinha apenas 10 anos!! Tem centenas de cantores adultos que não têm metade do fôlego que ela tem. E havia ainda quem acreditasse firmemente que tudo não passava de uma fraude, que era tudo playback e que a garotinha simplesmente mexia os lábios, dublando sei-lá-quem. Ela já participou de tantos programas de televisão, de tantos eventos, foram tantas as oportunidades nas quais ela demonstrou que é ela mesma quem canta, que nem vale a pena considerar este argumento. Aliás, com 12 anos de idade ela já tem uma vida artística mais plena e rica do que muito artista profissional por aí (em particular artistas brasileiros).

Na verdade, o fenômeno Jackie Evancho é tão impressionante que até é compreensível que as pessoas duvidem. Mas o fato é que ela é aquelas raras combinações de talento e investimento. Para um artista brilhar, em particular no meio musical, é preciso ter talento (que pode e deve ser lapidado com muito estudo, dedicação e paixão) mas também ter investimento, tanto na educação básica (na formação que começa em casa com incentivo da família) quanto na divulgação. Se só existe o talento, é como uma semente que não se desenvolve, uma grande promessa que não se concretiza. Se só tem investimento, vira algo meio artificial, meio sem sabor, como uma Britney Spears.

Se você procurar informações sobre Jackie na Internet, vai ver várias vezes a expressão "crossover singer", categoria na qual Jackie é classificada. Crossover singer é um termo usado para definir aquele cantor ou cantora que consegue colocar a voz tanto para música popular quanto para música erudita. Um exemplo típico deste tipo de cantora é Sarah Brightman, de quem Jackie é fã. Aliás, inclusive já cantaram juntas. Fizeram um dueto na final do America's Got Talent. Eu não gosto muito de Sarah Brightman, mas foi bonitinho ver o comportamento da Jackie frente a sua ídola. E olha: acho que a Jackie canta melhor...


Aos 11 anos Jackie fez o concerto "Dream with me", produzido em parceria com a Sony Music, onde ela faz duetos com vários artistas, entre eles Barbara Streisand e Susan Boyle, igualmente revelada ao mundo pelo America's Got Talent. O interessante é que, assim como Susan, Jackie não venceu a final: ficou em segundo lugar, perdendo para um tal de Michael Grimm. Abaixo um dos momentos do concerto, onde ela canta Nella Fantasia, uma canção em italiano baseada na música "Gabriel's oboe", tema principal do filme The Mission, de 1986. É de arrepiar...


Em outubro do ano passado (2012) foi lançado o quarto álbum de Jackie Evancho, chamado de Songs from de Silver Screen, contendo 12 músicas usadas em vários filmes, inclusive alguns filmes da Disney, arranjadas por Bill Ross. Assim que possível, vou dar uma conferida neste álbum.


Eu sinceramente desejo que Jackie Evancho continue em ascenção, continue desenvolvendo sua técnica e aprimorando o talento que já possui. Eu, particularmente, já virei fã.


quinta-feira, 8 de março de 2012

Anton Bruckner

Lá pelo ano de 1995 a editora espanhola Del Prado lançava nas bancas brasileiras uma coleção de encartes de música erudita. Eram 78 volumes, cada volume acompanhava um CD de áudio e consistia em algumas páginas do que, ao final, formariam 3 livros encadernados. As capas duras vinham também, em alguns volumes específicos. Na época, eu estava na faculdade e a pouca grana que eu ganhava na bolsa até que dava para encarar esta coleção. Então fui comprando os fascículos, que chegavam mais ou menos um por semana. Com o tempo, o tiozinho da banca até já deixava reservado meu exemplar. (Mesmo assim, perdi dois volumes quase no fim da coleção, dois de Mozart... que tristeza).

Coloquei como objetivo pessoal que eu leria o texto de cada fascículo e ouviria o respectivo CD com a devida atenção. Na época, eu já gostava de música erudita e até conhecia algumas obras e compositores, mas eu queria mesmo era ampliar meus horizontes.

Foi assim que ouvi pela primeira vez a música de Anton Bruckner.


A única obra dele que veio naquela coleção foi a Sinfonia n.4, a "Romântica". Lembro-me como se fosse ontem: comecei a ouvir e não consegui chegar ao final do CD. Na época não gostei, não suportei, mas sabia direito o motivo. Simplesmente meu ouvido não estava preparado para ouvir tal coisa. Hoje lembro disto como uma clara demonstração de que, na vida, a gente vai amadurecendo e aprendendo a gostar de obras que antes não seriam digeridas. Tudo ao seu tempo. Não preciso nem dizer que aquele CD é hoje um dos meus preferidos da coleção.

Ao longo de sua vida, Bruckner compôs missas, motetos, peças para órgão (instrumento no qual era exímio improvisador), mas o ponto alto deste compositor austríaco foram, sem dúvida, suas sinfonias. Nove ao total, assim como Beethoven, só que a nona de Bruckner ficou inacabada, com sua morte em Viena, 1896). E assim como Beethoven, Bruckner vivia um tanto sozinho e não tinha lá muitos amigos. Em sua época, depois de ser massacrado por muitas críticas, o reconhecimento e o sucesso vieram mesmo com a Sinfonia n.4 e a partir dela, uma sucessão de obras-primas. Era um compositor introspectivo, perfeccionista, auto-didata e sempre imerso em uma ansiedade e insegurança no que dizia respeito ao seu reconhecimento como artista. Tanto que, em 1867, acabou tendo um esgotamento nervoso e foi parar num sanatório.

No video abaixo, você pode conferir uma entrevista com Simon Rattle (atual regente titular da Filarmônica de Berlim) sobre a Sinfonia n.4 de Bruckner, com trechos da sinfonia.


Não encontrei nenhuma execução realmente decente desta sinfonia no YouTube. Até tem algumas razoáveis, mas já ouvi melhores. No geral, as sinfonias de Bruckner não são muito fáceis de se encontrar, mas vale cada segundo de procura. Isto é uma das coisas interessantes na música erudita: a busca incansável pela melhor interpretação, por aquela execução que chega a ser maior do que a própria obra em si, que não se limita à leitura mecânica da partitura.

Recomendo sinceramente: ouça as sinfonias de Bruckner de uma forma decente, com qualidade de som e com dedicação. Não dá para apreciar Bruckner no formato MP3 de 128kbps com um fone vabagabundo no meio do trânsito. Para ter uma remotíssima noção do que eu estou falando, dá uma conferida no video abaixo como é o final da Sinfonia n.8 (o maestro é Lorin Maazel, diretor da Filarmônica de Nova Iorque):


Para saber mais, temos o interessante texto:
Anton Bruckner - o Bach do Romantismo

E também tem o livro de Lauro Machado Coelho, O menestrel de Deus - Vida e obra de Anton Bruckner. (ISBN-13: 9788560187188, da Editora Algol), uma ótima leitura.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Jean Michel Jarre

Se você já tem uma certa idade, assim como eu, certamente já ouviu falar de Jean Michel Jarre.


Teve uma época, lá por 198x, a televisão mostrava trechos dos shows do Jean Michel Jarre, se me recordo bem era no Fantástico, da Globo. Ele era anunciado como o "mago dos teclados", e na minha cabeça de criança era mais ou menos assim que eu o via. Aquele uso compulsivo de lasers (ele tinha até uma harpa laser!) e aquele teclado circular cujas teclas se iluminavam ao ser pressionadas, bastaram para me deixar fascinado. É muito provável que foi ali que eu comecei a gostar de teclados e sintetizadores, mesmo sem nem saber o que era um "sintetizador" na época.

Jean Michel Jarre nasceu em agosto de 1948, francês, filho de Maurice Jarre (isso mesmo, o Maurice Jarre especialista em trilhas sonoras de filmes). Ele é, acima de tudo, um experimentador. Aliás, esta mesma qualidade de "experimentação" foi o que o levou a brigar com a gravadora Disques Dreyfus, depois de 25 anos juntos. Atualmente, a sua gravadora é a EMI. Reza a lenda que era comum Jarre entrar noites a dentro no estúdio em busca de sons diferenciados, inclusive usando objetos e técnicas nada ortodoxas para obter sons alguns sons incomuns e inovadores, dando a algumas de suas músicas um ar bastante experimental.

A obra-prima de Jarre é, na minha opinião, o álbum Rendez-Vous, de 1986.


Eu quase gastei o LP de tanto ouvir. Ainda está lá em casa, só que devidamente digitalizado, é claro.

Este álbum teve também uma importância histórica, pois "(Jarre) trabalhou num concerto com a NASA: o astronauta Ronald McNair iria tocar o solo de saxofone da música Rendez-Vous VI enquanto estivesse em órbita no ônibus espacial Challenger, enquanto os seus batimentos cardíacos seriam usados como amostras de som na mesma música. Esta seria a primeira música gravada do espaço, a ser incluída no álbum Rendez-Vous. Após o desastre com a espaçonave Challenger em 28 de janeiro de 1986, a música foi gravada com outro saxofonista, recebeu o nome de Last Rendez-Vous - Ron's Piece e tanto a música, como o álbum, foram dedicados aos astronautas mortos no acidente com a Challenger." (fonte: Wikipedia)

Outros álbuns de Jarre que merecem destaque, na minha opinião, são o Oxygene, de 1976 (seu primeiro LP totalmente instrumental e sintetizado), Equinoxe (1978), o fantástico Chronologie (1993) e o Waiting for Cousteau, de 1990, um álbum em homenagem ao famoso oceanógrafo e documentarista Jacques-Yves Cousteau. Destaques também para o The Concerts in China, de 1982, e o A.E.R.O., de 2004, um fôlego extra de Jarre dentro das tendências contemporâneas da música eletrônica pós 2000.


No video abaixo temos um trecho de um dos shows de J.M. Jarre. Tudo bem, talvez hoje em dia um show assim até seria considerado brega (em particular pela quantidade de fotos de artifício, um tanto exagerada), mas é interessante ver os conceitos que estavam ali presentes. O uso dos prédios e arquitetura local como painéis de projeção, a mistura de coral de vozes e instrumentos acústicos com sintetizadores e lasers, e toda aquela parafernália eletrônica (destaque para as partituras sendo dinamicamente exibidas em monitores CRT de fósforo verde!!), foram, no mínimo, referência para todos os shows de grande porte que vieram depois.


O som e imagem destes videos não está muito legal, mas provavelmente foram digitalizados de algum VHS. Dá para dar um desconto, né?
E no vídeo abaixo, provavelmente a música mais conhecida de Jean Michel Jarre, também do álbum Rendez-Vous. E dá-lhe mais fogos de artifício! (Confesso que até hoje tenho minhas dúvidas se aquele teclado luminoso funcionava mesmo ou se era apenas um apelo visual... porque, se era real mesmo, haja mão para tocar um simples acorde de quinta naquelas teclas largas!)


É bem verdade que atualmente, Jean Michel Jarre, em seus 63 anos de idade, já não produz nada novo. Sua produção atual é, basicamente, reformular seus antigos sucessos e fazer algumas turnês para mostrar esta "nova roupagem" de seus hits. Para mim, isto já não tem muito valor. Várias de suas obras são sensacionais do jeito que foram lançadas. Eu sei que a tecnologia dos sintetizadores melhorou muito nos últimos 30 anos, mas nem por isso você precisa ficar "atualizando" a sonoridade de antigas obras. Acredito que o auge de criatividade de Jean Michel Jarre está lá entre 1976 e 1993, mas já basta para lhe garantir um lugar de destaque na música contemporânea.

Para finalizar, lembro que eu ficava lendo na capa do LP quais eram os intrumentos que J.M.Jarre usava. Ficava imaginando como deveria ser legal ter pelo menos um daqueles teclados. Era um texto do tipo:

Equinoxe (1978)
Jean Michel Jarre played the following instruments:

2600 ARP Synthesizer, AKS Synthesizer, VCs 3 Synthesizer, YAMAHA Polyphonic Synthesizer, OBERHEIM Polyphonic Synthesizer, RMI Harmonic Synthesizer, RMI Keyboard Synthesizer, RMI Keyboard Computer, ELKA 707, KORG Polyphonic Ensemble, Eminent, Mollotron, ARP Sequenzer, OBERHEIM Digital Sequenzer, Matrisequencer 250, Rhythmicomputer, Vocoder E.M.S.


Atualmente, a Internet nos proporciona conhecer um pouco melhor alguns destes instrumentos. Se você ficou curioso, só para ilustrar, dá uma olhada numa demonstração do 2600 ARP Synthesizer.
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=ppnNs4KE8Z0

Que tal?

domingo, 20 de novembro de 2011

Samuel Barber

Na minha opinião, dentro do pouco que conheço de música erudita, acho que a peça musical mais triste que já ouvi é esta:

Talvez a palavra "triste" não seja a mais apropriada, mas, de qualquer forma, é uma música daquelas que abrem aquele baú secreto da nossa alma, trazendo à luz aquelas coisas que geralmente conseguimos abafar muito bem no nosso dia-a-dia. Mas esta é só minha opinião e não será unanimidade, obviamente. Não existem unanimidades em se tratando de ser humano.

Este peça musical, normalmente conhecida simplesmente como "Adagio for strings", trata-se do segundo movimento do Quarteto de Cordas op.11, do americano Samuel Barber.


Samuel Barber teve formação como compositor e cantor na renomada Curtis Institute of Music. Numa época em que a música era dominada por moderninstas tais como Schoenberg e Stravinsky, o romantismo singelo de Barber mexeu com as plateias. Seu talento para linhas melódicas fluentes e fáceis de memorizar mascarou os aspectos mais contemporâneos de sua composição, sobretudo o acurado manejo da dissonância e a orquestração inventiva.

O Quarteto para Cordas n.1 op.11 foi composto em 1936. Dois anos depois, o próprio Barber reescreveu-o para orquestra plena de cordas, aproveitando para acrescentar recursos como peso e sonoridade. Talvez em função do tom profundamente melancólico e contemplativo, este adágio encontrou resposta junto ao público, sendo executado em vários funerais, como os de Kennedy, Roosevelt e Einstein.

Na versão abaixo, temos o famoso segundo movimento em uma versão mais original, para quarteto de cordas mesmo. É lindo, quase que se pode ver as quatro pautas dançando em nossa mente.


E também temos abaixo a versão orquestrada, que é o video do início deste post. Aliás, no YouTube tem incontáveis vídeos com esta música de fundo, é complicado escolher. Acabei optando por este, pela sensibilidade na escolha das imagens e edição, mas devem ter outros ainda melhores.

No cinema esta música combinou lindamente, de uma forma emocionalmente perturbadora, com o memorável filme Platoon (de Oliver Stone, 1986). Trata-se da imortal cena da morte do Sgt. Elias.


E aqui tem uma edição bem bacana com cenas do filme e usando esta mesma trilha sonora.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Reconhecimento de músicas

Estes dias, durante o jantar, estávamos assistindo ao programa "Qual é o seu talento", do SBT. Um dos candidatos que apresentou-se era um mágico, Bianconi, bem competente até por sinal. Mas o que me chamou a atenção mesmo foi uma das músicas que ele usou de fundo em seu número. Era daquelas músicas que estava na minha mente, eu já ouvira antes com certeza, mas onde? Quando? Não tinha a mínima idéia do nome da música, nem compositor, nem nada.

Fico pensando: como eu resolveria isto há tempos atrás? Ligar para uma emissora de televisão não é como ligar para a rádio local de sua cidade... Bom, mas hoje em dia com a Internet, tudo ficou mais fácil.

O primeiro passo foi encontrar o vídeo do programa da televisão. Acabei achando o vídeo no YouTube, é lógico. A saber, a apresentação do mágico foi esta:


Minha primeira tentativa foi pedir ajuda para Michele, minha esposa, que tem um celular Motorola com aquele aplicativo MotoID, que identifica músicas. Mas o aplicativo não funcionou direito, por algum motivo desconhecido.
Então, fui a procura de alguma coisa a ser feita no computador mesmo. Acabei achando alguns sites que fazem on-line a mesma coisa que o MotoID faz. Alguns realmente são uma porcaria (como o AudioTag.info), mas o achado do dia foi o Midomi.

Como eu não estava em casa, tudo o que eu tinha a minha disposição era um fone da Leadership, daqueles com microfone, dos mais "chinelão". Mas foi suficiente. Coloquei para tocar o vídeo no YouTube e no trecho em que tocava a música, bastou encostar o microfone em um dos fones de ouvido, para fazer o Midomi "ouvir" via microfone o que estava sendo tocado nos fones! Sério, sem mentira, simples assim! Em cerca de 10 segundos de audição, ele me dava a resposta:


Fui ao YouTube novamente para dar uma geral e confirmar esta resposta. Dito e feito. Esta música, composta por Michael Gore, é tema do filme Laços de Ternura (Terms of Endearment), de 1983, filme este que nunca assisti, mas parece ser bacana. Já tá na minha lista de filmes que eu preciso ver.

Bom, então agora, aliviado com mais uma descoberta musical (quem já passou por isso sabe a sensação boa que dá), deixo com vocês o tema do filme, em duas versões: uma para piano solo e a outra orquestrada.



Bonita música, não?
Thanks Michael Gore and thanks to Midomi team!